Pesquisa musical, cultura de pista e conexões entre diferentes cenas e gerações.
DISCOTECAGEM EM VINIL DESDE 1999.
RELEASE
DJ, pesquisador musical, colecionador de discos, produtor cultural e designer gráfico, Luis Simonetti constrói há mais de duas décadas uma trajetória dedicada à música, ao vinil e à criação de conexões entre diferentes cenas e culturas.
A história começa em casa.
Aos 11 anos, em 1994, Simonetti começou a colecionar discos. Os pais e os tios lhe davam LPs, suas tias tocavam piano e a música fazia parte da rotina familiar. Havia discos espalhados pela casa, histórias sobre artistas e uma relação cotidiana com a escuta. A própria memória
musical daquele ambiente vinha de muito antes: Celly Campello frequentava a casa onde Simonetti cresceu, uma presença que ficou registrada na memória da família e que ajuda a entender o ambiente musical em que ele foi criado.
O primeiro grande universo foi o rock and roll. Simonetti passou a ouvir e colecionar discos com a curiosidade de quem não queria apenas conhecer uma música, mas descobrir o que existia ao redor dela.
Quem era o artista? Que outros discos havia gravado? Quem produziu?
De onde vinha aquele som? Essa curiosidade nunca desapareceu.
Na adolescência, os vídeos de skate abriram outra porta. Suas trilhas sonoras eram uma espécie de enciclopédia musical informal. Funk e soul norte-americanos, hip-hop, indie rock, rock alternativo, grunge e uma série de outras referências apareciam misturadas à cultura do skate. Para descobrir uma música, era preciso prestar atenção, procurar informação
e depois sair atrás do disco.
O skate acabou sendo uma das principais escolas musicais de Simonetti. Não apenas pelos sons, mas pela ideia de pesquisa, descoberta e contracultura que vinha junto daquela cultura.
As trilhas dos vídeos apresentavam artistas e cenas que muitas vezes não chegavam pelos caminhos tradicionais. Para quem queria descobrir mais, era preciso procurar. Essa prática de procurar aquilo que estava fora do centro seria uma característica que acompanharia toda a sua trajetória.
Os clubes também fizeram parte dessa formação. Simonetti cresceu próximo de dois deles e, ainda criança, frequentava as matinês. Mais tarde, passou a acompanhar as noites e os DJs.
Antes de começar a tocar, já observava o que acontecia atrás da cabine: a escolha dos discos, a sequência, a reação do público e a maneira como uma seleção musical podia transformar uma pista.
No final de 1998, vendeu a guitarra e comprou seus primeiros toca-discos.
Em 1999, começou a discotecar.
Os primeiros anos como DJ aconteceram em meio a uma transformação importante na música.
No começo dos anos 2000, Simonetti mergulhou na descoberta da música eletrônica, que ampliou ainda mais uma escuta que já vinha sendo formada pelo rock, pelo hip-hop e pela cultura do skate.
The Chemical Brothers, The Prodigy, Josh Wink e outros nomes fizeram parte dessa descoberta, mas a curiosidade rapidamente levou para além do que estava em evidência. House, Techno, Electro, Soulful House e Drum and Bass passaram a fazer parte de uma pesquisa cada vez mais voltada para as cenas underground.
Foi nesse ambiente que Simonetti encontrou uma cultura que combinava música, tecnologia, pista, experimentação e pesquisa. Selos independentes, DJs, produtores, festas e discos que
circulavam fora do circuito mais comercial passaram a fazer parte de sua formação. O Drum and Bass teve um papel importante nesse período. O contato com o DJ Marcelo Paixão, que havia voltado de Londres trazendo uma coleção de discos, apresentou a Simonetti uma cena que naquele momento ainda carregava forte espírito underground.
Em 2000, comprou Digital Nation, do Bad Company, seu primeiro disco de Drum and Bass. A partir dali, uma coisa levou à outra. O Drum and Bass o aproximou do reggae e da música jamaicana. A música eletrônica abriu caminhos para o jazz, o blues, o funk e o soul. O hip-hop já vinha da cultura do skate. O rock continuava presente. A coleção crescia e, junto com ela, um mapa musical cada vez maior.
Simonetti passou a entender a música menos como uma sequência de gêneros e mais como
uma rede de influências.
Sua coleção reúne música brasileira, rock, hip-hop, reggae, dub, cumbia, música latina, jazz, funk, soul, disco e música eletrônica. Há discos de diferentes épocas e países, músicas conhecidas e obscuridades, gravações antigas e lançamentos recentes. O interesse nunca foi apenas acumular. É pesquisar.
É justamente nessa pesquisa que a música brasileira ganhou um papel central. Em 2010, Simonetti criou o Da Silva, projeto de discotecagem dedicado exclusivamente à música brasileira e pioneiro nesse formato no Vale do Paraíba. O projeto consolidou uma pesquisa que já vinha sendo construída havia anos e passou a definir uma parte importante de sua identidade como DJ.
Samba, samba-rock, MPB, funk brasileiro, soul, maracatu, manguebeat e música afro-brasileira fazem parte desse repertório. Mas Simonetti não trabalha com essas linguagens como compartimentos. O interesse está nas relações.
Uma música brasileira pode encontrar um disco de soul. O funk brasileiro pode dialogar com o hip-hop. Um reggae jamaicano pode aparecer em uma pesquisa de música brasileira. Uma cumbia pode fazer sentido ao lado de uma faixa brasileira. Uma gravação antiga pode conversar com um lançamento que acabou de sair.
O rock também permanece como uma espécie de linha subterrânea em sua pesquisa. A música que formou sua escuta na infância continua reaparecendo, seja diretamente no repertório, seja na maneira de pensar as relações entre música, cultura de rua e contracultura.
O vinil é o instrumento que permite essa pesquisa.
Para Simonetti, o disco não é simplesmente um objeto de nostalgia. É um documento, uma fonte de pesquisa e uma possibilidade de descoberta. Cada coleção de discos é também um arquivo que pode ser reorganizado a cada apresentação.
Ele pode tocar uma gravação de décadas atrás e, alguns minutos depois, apresentar um lançamento recente. Pode tirar de uma caixa um compacto jamaicano, atravessar uma faixa brasileira, passar por um disco de soul ou funk e chegar à música eletrônica. A questão não é a
idade do disco. É o que aquela música pode dizer quando colocada ao lado de outra.
Sua técnica de mixagem acompanha essa maneira de pensar. Ritmo, andamento, textura e contraste são utilizados para construir relações entre músicas. O objetivo não é apenas passar de uma faixa para outra, mas criar uma sequência em que uma música explique, contradiga ou surpreenda a seguinte.
Essa maneira de trabalhar levou Simonetti a circular por diferentes pistas, palcos e espaços culturais. Durante 19 anos esteve ligado ao Jardim Cultural, além de ter sido residente do Porto, Open House e Republic ca, e a Burger em São José dos Campos. Tocou em festivais de jazz, eventos culturais e literários e em diferentes projetos independentes.
Ao longo da carreira, também dividiu palcos e programações com artistas de universos muito distintos. Entre eles estão Emicida, Mano Brown, Black Alien, KL Jay, DJ Cia, Rael da Rima, Djonga, BK’, Tássia Reis, Thaíde, Rapadura, Tropkillaz, DJ Nuts, Hamilton de Holanda,Trio Corrente, Chico Chico, Otto, Fernanda Porto, Banda Eddie, Edgar Scandurra, 9thWonder, DJ Patife, Ranking Joe, Earl Sixteen e Soul Slinger, entre muitos outros.
É uma lista que atravessa rap, hip-hop, música brasileira, jazz, reggae, rock e música eletrônica. Mais do que mostrar quantidade, ela revela a amplitude da pesquisa e a capacidade de Simonetti de circular por diferentes cenas sem abandonar sua própria identidade.
A atuação de Simonetti também passou pela criação de cenas.
Como produtor cultural, criou o 00 / Zero Zero Festival, realizado em 17 edições e dedicado à música autoral, reunindo DJs e bandas de diferentes partes do Brasil e atrações internacionais.
Também criou o Ubuntu, projeto dedicado à música negra.
Na cena de Drum and Bass, esteve envolvido com o The Bass, projeto consagrado de São Paulo que teve em Taubaté sua primeira edição fora da capital. A edição reuniu nomes como Bungle, XRS, DJ Patife e DJ Marnel, entre outros.
A experiência como produtor se mistura à experiência como músico. Simonetti integrou durante sete anos a Mulé da Muleta, ligada ao maracatu e ao manguebeat, e participou da Caos Maria, experiência que também marcou sua primeira aproximação com a gravação de um álbum.
Há ainda o design gráfico, outra atividade que acompanha sua trajetória há anos. Simonetti criou pôsteres, flyers, identidades visuais e materiais de comunicação para seus próprios projetos e para iniciativas culturais.
Nesse sentido, música, imagem e produção cultural nunca estiveram muito separadas. Criar uma festa significava também pensar sua identidade. Criar um projeto significava pensar o cartaz, a comunicação,
o espaço e o público. A pesquisa musical fazia parte de uma construção maior.
Essa atuação como produtor cultural também ajudou Simonetti a criar oportunidades para artistas e cenas que muitas vezes estavam fora do circuito tradicional. Ao longo dos anos, seus
projetos funcionaram como pontos de encontro entre públicos, músicos, DJs, colecionadores e produtores.
Hoje, a música brasileira ocupa um lugar central em sua discotecagem, especialmente através
do vinil. Mas sua pesquisa continua aberta.
Continua pesquisando rock, indie, rock alternativo, grunge, reggae jamaicano, cumbia, soul, funk, jazz, hip-hop e música eletrônica. Continua comprando discos antigos e
procurando lançamentos. Continua encontrando músicas que conversam entre si mesmo quando foram produzidas em lugares e épocas completamente diferentes. O que mudou foi a quantidade de referências acumuladas. O princípio continua o mesmo.
Simonetti começou a colecionar discos aos 11 anos, em uma casa onde a música já fazia parte da memória familiar. Passou pelo rock, descobriu novas linguagens através do skate, mergulhou no hip-hop, encontrou a música eletrônica e seu universo underground, chegou ao Drum and Bass e ao reggae, aprofundou sua pesquisa em música brasileira, criou projetos, produziu festivais, tocou com artistas de diferentes cenas e construiu uma coleção que continua em expansão.
Mais de três décadas depois daquele primeiro impulso, a pesquisa continua aberta. Encontrar um disco. Ouvir. Pesquisar. Fazer uma conexão. E colocar a música para tocar.
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